segunda-feira, janeiro 24, 2011

Luanda em Mais um Aniversario



Um olhar sobre os muitos problemas de Luanda




Luanda completa os seus 435 anos em tempo de esperança. A cidade secular viveu nas três últimas décadas um dos mais graves períodos da sua existência, mas os projectos de requalificação urbana que estão em marcha permitem sonhar com o renascer de uma das mais belas capitais do mundo. Nem as feridas provocadas por anos de abandono apagam a paixão dos luandenses pela sua terra.

Hoje podemos falar da Grande Luanda. A cidade cresceu para Viana e para Sul. Esse crescimento, inicialmente foi ordenado mas depois veio o caos. Mesmo assim, Viana tem as urbanizações do Zango que quase “encostam” à comuna do Bom Jesus, no Bengo. As urbanizações do Panguila são uma ponte que está quase no Caxito.

Os refugiados da guerra cercaram Luanda com um “anel” de novos bairros desordenados e caóticos. Têm nomes a condizer com a origem dos deslocados: Malanjino, Uíge ou Huambo. O desordenamento urbano tinha no mercado Roque Santeiro a sua máxima expressão. As autoridades conseguiram eliminar esse cancro que ameaçava inviabilizar a velha cidade centenária e invadi-la até o caos se transformar em regra.

O mercado Roque Santeiro era um exemplo flagrante da falta de autoridade do Estado. Há quem não acredite, mas naquela amálgama de lixo e barracas existiam escolas de condução ou agências funerárias. Os clientes podiam comprar no mercado desde agulhas até armas ou camiões. Hoje os vendedores estão no Mercado do Panguila onde praticam o comércio em condições higiénicas e de segurança. Ganharam os vendedores, os clientes mas sobretudo ganhou a secular cidade de Luanda.



Trânsito caótico

O caos urbanístico em breve chegou a todos os sectores de Luanda. O crescimento rápido e desordenado da população, a importação livre de milhões de carros, a debilidade do ensino de condução provocaram nas ruas de Luanda engarrafamentos constantes onde diariamente se perdem milhões de horas de trabalho e se desperdiçam biliões de litros de combustíveis.

Luanda hoje tem uma auto-estrada que envolve a cidade, mas pouco adiantou essa importante infra-estrutura. Há cada vez mais carros a circular e a esmagadora maioria dos automobilistas não respeita as regras básicas do Código de Estrada.
Os próprios agentes da polícia convivem bem com a falta de respeito pelas regras de trânsito.

Muitas vias secundárias e os arruamentos de bairros suburbanos estão intransitáveis. O governador da província, José Maria Ferraz, tem feito visitas aos municípios e já conhece a situação. Mas não há uma solução imediata para os problemas da cidade e as intervenções exigem uma conjugação de esforços de todas as instituições que têm a responsabilidade de gerir Luanda.

Os luandenses aguardam, pacientemente, pela reparação das vias. Mas mesmo com as melhores estradas do mundo, nada se resolve enquanto o civismo não se sentar ao volante e a mão pesada da lei não puser na ordem os automobilistas que infringem as regras de trânsito. E entre estes, estão os candongueiros que continuam com “carta branca” para cometer as mais bárbaras tropelias nas ruas da cidade, com a conivência dos agentes de trânsito.



Zungueiras perseguidas

Luanda tem zungueiras em todas as esquinas. Ao contrário do que muitos pensam, elas não são fruto da guerra. As quitandeiras fazem parte da paisagem humana de Luanda e sem elas, a cidade perde identidade. O seu comportamento é que mudou ao longo dos séculos. No século XIX elas eram exemplo de limpeza e cuidado com os produtos que vendiam.

Hoje as zungueiras, herdeiras das quitandeiras de Luanda, perderam o sentido da limpeza e da higiene. Algumas cometem autênticos atentados à saúde pública. Os consumidores aceitam essas situações. Mas os agentes da fiscalização reprimem essas situações e com toda a razão. Não pode haver contemplações com quem atenta contra a saúde pública, por muito que custe reprimir quem tem uma vida tão precária.

O ministro do Interior, Sebastião Martins, num encontro com jornalistas dos órgãos de informação pediu ponderação, em determinadas situações, aos efectivos da Polícia Nacional, no combate ao comércio ilegal, dito informal. É uma atitude louvável. Mas a tolerância tem de dar lugar à intolerância quando está em jogo a saúde e a vida dos “fregueses”.

Peixeiras ao sol

As peixeiras continuam a “anunciar” os seus produtos com os seus pregões típicos. Luanda sem esta actividade é outra cidade, menos humana, mais fria, muito mais desumana. “É espada grooossa! É caraparaaauuu! É madiongááá! É sardinhááá!”.
Houve tempo que estas mulheres começavam os seus pregões “manhã, manhãzinha” e desapareciam das ruas da cidade quando o sol começava a aquecer.

Hoje elas andam pelas ruas de manhã à noite e o peixe que vendem é pista de aterragem de nuvens de moscas. O problema é sempre o mesmo: saúde pública. Vender peixe sem o mínimo cuidado de higiene, com a “mercadoria” sob o sol impiedoso do fim da manhã e do princípio da tarde, pode provocar muitos problemas de saúde aos compradores ou mesmo pôr as suas vidas em risco.

Nenhum pregão típico vale uma vida humana. As autoridades sanitárias também neste aspecto têm uma palavra a dizer na defesa dos consumidores. Luanda, ao comemorar mais um aniversário, tem tudo a ganhar se começar a ser uma cidade normal. E começar pela limpeza e higiene é um bom princípio e uma excelente prenda de aniversário aos luandenses.


[Por Pereira Dinis - Jornal de Angola]


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Parabens Luanda

4 comentários:

Atlântico Azul disse...

Fantástico, Koluki!
Kandando!!!!!

(Desculpe a ausência de notícias...)

Koluki disse...

Obrigada tambem pelos outros dois posts nesta data festiva.

(Enquanto houver Luanda Blues estaremos sempre em contacto e teremos sempre noticias...)

Kandandos de volta!

Koluki disse...

Gostaria apenas de fazer duas notas ao artigo:

i) A manutencao do Roque Santeiro nas condicoes em que existia e operava era certamente problematico, nao so' para os seus utentes como para a cidade em geral. Porem, continuam no ar duvidas sobre se a sua destruicao nao tera' obedecido mais a imperativos de especulacao imobiliaria, uma vez que a zona em que se situava, tendo sido embora no periodo colonial a lixeira/barrocas da cidade, e' agora uma "zona nobre"...
Por outro lado, os vendedores do Roque "relocados" agora no Panguila, queixam-se de terem as melhores condicoes possiveis la', excepto... clientes! Que era o que nao faltava no Roque.

ii) Sobre as zungueiras, continuo convencida de que elas sao um produto da guerra - a comecar pelo facto de eu apenas ter comecado a ouvir essa designacao na ultima decada e meia. Por outro lado, elas diferem substancialmente das tradicionais quitandeiras no sentido em que estas sao/eram exclusivamente vendedoras ambulantes de produtos alimentares (sobretudo frutas), enquanto as zungueiras vendem praticamente de tudo, mas especialmente produtos manufacturados (sobretudo roupas e outros aderecos).
Por outro lado, perece-me um tanto tendencioso imputar a degradacao dos habitos de higiene apenas a elas, uma vez que, como de resto o artigo indica, esse e' um mal geral da cidade... Seja como for, nada justifica os niveis de violencia que contra essas mulheres (e muitas vezes com os seus filhos as costas) e' exercida pela policia, ao ponto de algumas ja' terem sido vitimas mortais dessa brutal e criminosa violencia!

Portanto, neste dia do aniversario de Luanda, as minhas saudacoes especiais as suas incansaveis zungueiras e kitandeiras!!!

Atlântico Azul disse...

A especulação imobiliária fomentada pela ganância bancária destrói tudo por onde passa. Felizmente que não chega ao MAR nem aos nossos SONHOS...
Beijinho e kandandinho, Koluki!