Mostrar mensagens com a etiqueta HISTORIA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta HISTORIA. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, abril 04, 2011

Ao Nosso Carnaval... Voltemos Pois!



“Apos a independencia, o Estado passou a financiar os grupos e fixou a data do Carnaval a 27 de Marco, dia do aniversario da Vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas.” Assim reza uma historia a qual voltarei mais tarde neste post.

Mas, por agora, falemos de datas: 4 de Fevereiro, ou 15 de Marco? 2 de Marco, ou… outra data qualquer? 27 de Marco, “dia do aniversario da Vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas”, ou 25 de Maio (em 91), dia da assinatura do acordo de retirada das forcas cubanas na sequencia da batalha do Kuito Kwanavale?

Certo, certo, e porque o 4 de Abril parece que tambem ja’ mudou para o 5 de Marco, parece que as unicas datas certas do pos-Dipanda que temos, para alem do proprio 11 de Novembro, sao o 23 de Janeiro e o 27 de Maio… Essas datas, infelizmente, por muito que se as queira enterrar na 'bruma da memoria', de certeza que nunca poderao ser mudadas (mesmo porque ha' sempre alguem pronto a lembrar-nos delas ainda que "apenas por entre os dentes, em silencio"...), para o bem ou para o mal… E isso ao contrario do Carnaval, cuja data, de ha’ uns anos a esta parte, voltou a ser mudada para o dia que tradicionalmente lhe e' reservado.

E e’ essa palavra, “tradicionalmente”, que me faz voltar ao Carnaval depois de este ano o ter ja’ assinalado aqui. E tudo porque o Carnaval deste ano me deixou muito kafusa entre as nocoes de 'tradicao' e 'modernidade'...



Entao nao e’ que o vencedor do ano passado, o Unidos de Caxinde (UC), da Associacao Cha' de Caxinde dirigida por Jacques dos Santos, este ano ficou em oitavo lugar , ou seja, a um passo de ser relegado para o segundo escalao, e decidiu, na semana que ontem terminou, nao mais voltar a competir no Carnaval de Luanda?! Mas nao, desenganem-se os que comecaram ja’ a pensar em “mau perder”: aparentemente e’ tudo so’ mesmo em nome da 'modernidade' e… do 'respeito pelas instituicoes'! Mas o 'respeito pelas instituicoes' nao implica de algum modo o respeito pela 'tradicao' e suas instituicoes? Estou mesmo kafusa!

E pode la’ haver mais modernidade do que uma Segunda Marginal novinha em folha para inaugurar com o desfile de Carnaval, na data certa, no pos-Dipanda?



E mais kafusa ainda fico quando me dizem que e’ tudo por culpa da Delegacao Provincial da Cultura de Luanda de que aqui se fala… Mas, na altura nao os aplaudiram todos e todas (embora tenham feito vista grossa e assobiado pro lado perante certos corpos semi-nus e respectivas bundonas klassiko-kulturais sendo paradeados em publico exactamente naquela mesma altura...)? Ou estariam, em ambos os casos, so' a fingir? E o que e’ que eles fizeram ali senao proibir a "exibicao de bundas em publico"? E isso estara’ muito longe da "exibicao de mini-saias e ‘pernoes’" (... como cantava o Mestre Geraldo: oh mini-saia brinca na areia, mulher e' bessangana, mulher e' de respeito, brinca rebita...) que supostamente (tambem?) representariam a 'modernidade' do UC, em vez das damas com aquelas “saias compridas tipo varina” dos tempos do kaprandanda que “nao deixam ver nada” e os cavalheiros vestidos segundo a "estetica do pinguim" sob o sol escaldante?! Nao... estou mesmo kafusa!



Nao deixo, no entanto, de lamentar essa dramatica decisao, aparentemente in extremis , do UC. Nao necessariamente pela 'modernidade' em nome da qual se manifestam, uma vez que, como venho repetindo, estou bastante kafusa sobre o que isso possa significar no contexto do Carnaval Angolano, mas pela diversidade que, obviamente, se perde com a saida de um grupo que, pelos ecos que me vao chegando, se tornou tao proeminente no Carnaval de Luanda durante a ultima decada. E sentindo-me tao frequentemente entre os excluidos e rejeitados de toda a ordem e natureza, nao posso, em nome do conceito de cidadania e seus respectivos direitos, deixar de sentir simpatia por quem tambem assim se sinta em quaisquer circunstancias.

Porem, porque e’ (foi) Carnaval, espero que nao me levem a mal por sugerir aos membros do UC que 'sigam o leader' (a.k.a. Banda Desenhada) e vao paradear toda a sua 'modernidade' no Carnaval de Benguela… ali e’ que talvez ninguem mesmo lhes vai levar a mal!



Entretanto...



Numa segunda abordagem, porem, talvez a principal razao de eu estar tao kafusa nao tenha bem a ver com a decisao dos UC, mas mais com o facto de eu ter pensado, como aqui expressei, que "progresso" (ou, se se preferir, "modernidade") em termos de "semba, kizomba e kuduro", especialmente se em comparacao com outras formas de expressao desses generos, poderia (tambem e por exemplo) significar o que ouve nesse Kamusekele do Dog Murras com o Kota Bonga, utilizando sons, ritmos e o espirito do Carnaval tradicional de Luanda... E nao e' que esse mesmo Kamusekele so' me trouxe bwerere' do bwe' do bwe' de makas de sanzala aki pro mo kubiku, com ameacas de morte e tudo?!



[Kamusekele - Dog Murras, feat. Bonga]


Mas afinale parece que, tal como a decisao dos UC, nem tudo o que parece nas reaccoes e atitudes intolerantes dos "absolutamente alergicos" ao kuduro (e... aparentemente, a este blog! - como se eu o tivesse inventado ou fosse a sua maior aficcionada e propagandista e, ultimamente, tambem dos tais de melindros, kambwas e sei eu la' mais o que!...) e': porque a maka deles parece ter tudo a ver, apenas e tao so', com a letra desse Kamusekele... a qual, quanto a mim, constitui, nada mais nada menos, do que um bom exemplo de "critica social" que, paradoxal e ironicamente, alguns dos seus maiores depredadores dizem praticar, apelidando-a de "musica sem conteudo"! Mas, e mais uma vez nao me levem a mal porque de Carnaval se trata, la' diz o ditado: "quem se ofendeu, carapuca lhe serviu"!

So' que, enquanto eu aqui sou bombardeada sem apelo nem agravo com obuses no meu quintal por causa da musica dele, o Dog Murras passou este Carnaval, bem como os dos ultimos anos, na maior la' pras bandas do Brasil, abrilhantando o Carnaval da Bahia com os sons do Carnaval de Luanda, como aqui se pode verificar... Ja' viram?!







Mas, voltando ao Carnaval de Luanda, uma coisa que gostei particularmente de saber foi do desfile dos kanukos, onde, segundo esta noticia , "o prémio correspondente à classe C (infantil) foi atribuído à canção “Defesa da tradição”, do grupo União Cassules dos Jovens da Cacimba, pelo carácter explícito das mensagens apelativas, aproximando o ritmo expressivo do Carnaval à tradição musical angolana, enaltecendo, desta forma, as origens sócio-culturais do Carnaval angolano."

Bom, o que eu e os ndengues do meu bairro (na altura B.O./Sao Paulo) nao dariamos para podermos ir tambem desfilar "oficialmente" na Marginal! ... Naqueles nossos tempos, nas vesperas do Carnaval, era um corre-corre para arranjarmos nas despensas das nossas maes 'massa estrelinha' e 'massa cotovelo', mais feijoes de varios tipos, cores e tamanhos e aquelas sementes vermelhas e castanhas que iamos coleccionando ao longo do ano quando iamos a praia da floresta da Ilha ou ao Mussulo, mais algumas missangas de varias cores para fazermos os nossos colares e pulseiras; mais saias feitas de sacos de sarapilheira, desfiados da meia-perna para baixo e uns tops tambem de sarapilheira ou de panos de cores garridas, com turbantes na cabeca a condizer e as caras pintadas das cores e geitos da nossa criatividade, com muito vermelho e branco a mistura...

Mas ali nao havia bem competicao, nem juri: ganhava o grupo que conseguisse amealhar mais kitari dos mais-velhos pelas ruas em que desfilavamos - um pouco como fazem os miudos do ocidente no seu Halloween.

Entao, escolhiamos os nossos principe e princesa e saiamos em grupos pelo bairro afora pra brinkar o nosso karnaval, a bater os nossos batukitos bem aquecidos e as nossas latas e garrafas bem pintadas e decoradas, a soprar os nossos apitos e cornetas e a dikanzar os nossos bordoes bem trabalhados e os nossos chocalhos, todos bem ritmados e animados atras do Mayado, que era o nosso maskarado 'a Tchinganji ou Mukixi:

Tam-taram-tam-tam... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... mayado! Pao com gin-gu-ba... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... mayado! Pao com gin-gu-ba... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... Mayado!!!




A 'Tradicao'


“O semba e’ uma adaptacao do kazukuta. O meu pai transpos os ritmos kimbundus para a viola. Tinha conhecimento das musicas portuguesas e brasileiras. Transpos muita coisa em tom menor.” - Carlitos Vieira Dias




Em Luanda e noutras cidades (Malange, Benguela) o Carnaval e’ desde o seculo XIX a festa popular por excelencia onde os africanos se mascaram de figuras portuguesas e dancam pantomimas alegoricas. Nos anos 40, nos grupos carnavalescos dos musseques, ganham forca as percussoes e a dikanza, ao lado da corneta, dos apitos e dos chocalhos. As dancas sao dizanda, varina, kabetula, cidralia, maringa, kazukuta, njimba. O carnaval foi proibido de 61 a 68.


[Na Rua de Sao Paulo - Kabokomeu]




Apos a independencia, o Estado passou a financiar os grupos e fixou a data do carnaval a 27 de Marco, dia do aniversario da vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas. Uniao Operaria Kabokomeu foi fundado em Janeiro de 1952, por operarios do Sambizanga. Uniao Mundo da Ilha juntou em 1968 varios grupos da Ilha de Luanda. Na Rua de Sao Paulo e’ um kazukuta, danca baseada em pantomima. Amanha Vamos a Procura da Chave e’ uma varina. Se bem que gravadas em 1978, estas duas musicas sao representativas do carnaval dos anos 50-60.


[Amanha Vamos a Procura da Chave
- Uniao Mundo da Ilha]



A rebita apareceu no final do seculo XIX nos saloes de uma elite negra e mulata das cidades (Luanda, Benguela). A danca de origem europeia (quadrille ou contre danse) foi africanizada. Toca-se com concerina e dikanza. As damas sao trajadas de panos africanos, com penteados kindumba, os cavalheiros de fato, a rigor, com chapeu de coco. Os apitos e as ordens (com algumas palavras em frances) do “comandante”, dao o sinal das viragens, acompanhadas de palmas e umbigadas. O nome tradicional e’ massemba, a palavra rebita aparece mais tarde. Mestre Geraldo, grande mestre de rebita e chefe de grupos carnavalescos, introduziu percussoes dos pescadores da Ilha de Luanda, tornando-a mais popular. Mini Saia, muito celebre, e’ uma mistura de varina e massemba.


[Mini Saia - Mestre Geraldo Morgado]


[Extractos de textos de Jorge Macedo, Artur Arriscado, João Chagas, Gilberto Junior e Ariel de Bigault, in Angola 60’s – Buda Musique 1999]





Finalmente, se me e' permitido, gostaria de regressar ao meu Carnaval.




Como afirmei em algumas ocasioes (e.g. aqui), tenho por principio fundamental nao falar, menos ainda tentar explicar, (d)os meus poemas, mesmo quando confrontada, como tem sido norma desde a publicacao do meu primeiro, e ate' agora, unico livro, com a sua total deturpacao, manipulacao, ou indevida interpretacao/apropriacao - voluntaria e conscientemente ou nao. Dito isso, tenho vindo ultimamente a abrir algumas excepcoes, como foi o caso aqui, aqui, aqui e aqui.

Fa-lo-ei agora tambem um pouco em relacao a esse poema em que tentei recriar a atmosfera do Carnaval.

Sempre entendi o Carnaval (em qualquer parte do mundo) como uma manifestacao de algo assim como o "festival da carne" - uma festa pagã destinada inicialmente a dar vazao a tudo (ou quase) quanto era proibido pela religiao ao longo do resto do ano (dai o "prazer 'imedido' na exorcisao das teias do armario"); uma especie de "teatro do absurdo", uma expressao de "transgressao" daquilo que vai contra a norma estabelecida, "anormal" portanto (e.g. "despir o nu e agasalhar o mal vestido" - algo expresso na exuberancia das vestes de Carnaval mesmo pelos que durante o resto do ano mal teem com que se vestir, podendo para tanto chegar a "despir o nu" -, ou "qualquer ovo que se machuca e se espalha lentamente pelo corpo", ou ainda "um aperto de maos, de costas, para dar mais prazer"). Tudo isso, porem, com um prazo limitado de que os folioes nao se lembram "senao a despedida", i.e., apenas quando e' tempo de "varrer as cinzas".

Enfim, uma festa destinada a "chocar", a provocar "choque(s)" no sistema social - e, nessa medida, ele tera' evoluido do chocar com o sistema religioso ao chocar com o sistema politico, "entre a calma do ocio - o dolce fare niente, o nao trabalhar, dos dias de Carnaval, que e' tambem um acto contra a 'norma' - e o desprezo da revolta" [contra o(s) sistema(s)].

E tudo isso para que a norma, o(s) sistema(s), enfim, os "valores e principios" estabelecidos, se possam manter (e reproduzir-se) quando tudo regressa a normalidade do resto do ano - dai a "tempestade que nunca desabara'" apesar do "vento rasteiro, sibilino": Carnaval.

Mas o tema do Carnaval foi apenas um pretexto para escrever sobre outras coisas que na altura se estavam a passar na minha vida, ao regressar a Luanda com o meu filho de Lisboa, depois de ter passado pelo Carnaval do Rio com o falecido pai dele em 1983. Mas essas sao outras historias.

sexta-feira, junho 05, 2009

NZINGA: “PRIMEIRA GOVERNADORA ANGOLANA DE LUANDA”

Apesar do vasto acervo bibliografico existente sobre a Rainha Nzinga, ha’ aspectos da sua vida e trajectoria politica menos conhecidos do grande publico, mesmo do angolano, entre o qual me incluo. Paralelamente a esse insuficiente conhecimento, verifica-se actualmente uma certa tendencia para o denegrimento do seu legado historico, na base da qual se teem desenvolvido alguns discursos que sistematicamente a pretendem retratar como “nada mais do que uma escravocrata negra, que vendeu o seu proprio povo aos europeus no trafico negreiro”. Tais discursos teem servido de suporte, entre outros posicionamentos politicos por alguns sectores da sociedade angolana, para a oposicao a colocacao da sua estatua no Largo do Kinaxixi, no centro de Luanda.

Sendo a Historia uma disciplina bastante susceptivel as motivacoes ideologicas, intencoes politicas, interpretacoes subjectivas e especulacoes varias, tanto de quem a le como de quem a escreve, parecem haver quase tantas versoes da vida de Nzinga quanto autores dessas mesmas versoes (isto ja’ colocando de parte as versoes romanceadas e as que sao puramente do dominio da fantasia e da lenda). E, sendo aparentemente precarias e pouco sistematizadas as fontes de literatura oral de origem angolana sobre a sua historia, as versoes tidas por mais fidedignas e usadas como “fontes primarias” pela maioria dos investigadores teem sido geralmente os relatos e correspondencia de missionarios ao servico da “evangelizacao” pela Igreja Catolica (dentre os quais se destacam os padres Antonio Brasio, Antonio de Gaeta e Geovanni Cavazzi), viajantes varios, administradores e embaixadores portugueses e holandeses residentes temporariamente ou enviados em missao a corte de Nzinga em varias ocasioes durante o seu reinado.

Sera’, portanto, apenas natural que tanto uns como outros (embora uns mais que outros) tenham enfatizado, sem contudo prestarem muita atencao a sua contextualizacao temporal, geografica, demografica ou cultural, nos seus relatos, “actos barbaricos” alegadamente praticados por Nzinga quando em alianca militar circunstancial com os chamados “jagas”, por um lado como suporte e vindicacao da sua “missao civilizadora” (“bem sucedida”, segundo algumas dessas fontes, com a conversao, e mais tarde reconversao, de Nzinga ao Catolicismo) e, por outro lado, como atenuante discursivo e justificativo moral para o trafico transatlantico de escravos pelos europeus que, segundo alguns, “apenas deu continuidade a uma pratica ja’ endemica na regiao” e da qual Nzinga seria uma “insaciavel adepta”.

Nao sendo especialista nessa materia, nao me proponho aqui dissecar tais versoes – tarefa a que, alias, varios competentes e renomados historiadores (tais como David Birmingham, Beatrix Heintze e John Thornton, entre outros) se venhem ha’ muito dedicando. Pareceu-me, porem, pertinente que o tema fosse abordado, ainda que sucintamente, neste blog, que, sendo dedicado a Luanda, tem apresentado a figura de Nzinga como uma referencia. E, com esse fito, das varias escolhas possiveis entre a diversa bibliografia existente sobre a Soberana Angolana, decidi traduzir e trazer para aqui uma versao sumarizada da biografia da Rainha Nzinga Mbandi (subtitulos e observacoes em italico de minha autoria), incluida na Encyclopedia of World Biography (2004), onde se pode ler algo muito pouco divulgado, a atribuir-se total credibilidade a essa fonte: ela tera’ sido a primeira Governadora Angolana de Luanda!

***

Rainha do Ndongo e da Matamba


“Sendo eu nascida para mandar no meu Reino, nao tenho que obedecer nem reconhecer um outro soberano e passar de Senhora absoluta a serva ou escrava. Se o Portugues quer de mim um donativo cada ano, da-lo-ei de boa vontade, desde que ele me de tambem um, e assim estaremos iguais na cortesia”
(Rainha Nzinga Mbandi a um emissario portugues - 1657)


Uma das grandes mulheres lideres de Africa, a Rainha Nzinga Mbandi* (circa 1581—1663) lutou contra o comercio de escravos e a influencia europeia em Angola, no seculo dezassete. Conhecida como uma astuta diplomata e lider militar visionaria, resistiu a invasao e as “rusgas” de escravos (as chamadas “guerras do kwata-kwata”) pelos portugueses durante 30 anos. Habil negociadora, aliou-se aos holandeses e lancou-os contra os portugueses num esforco por se manter livre da dominacao portuguesa. Nzinga lutou por uma Angola livre ate’ a sua morte aos 82 anos, depois da qual uma sucessao de lideres fracos deixou o pais aberto a retomada do controlo pelos portugueses.

Entre finais do seculo dezasseis e principios do dezassete, os europeus negociavam os seus interesses no comercio de escravos em Africa. Os portugueses procuravam escravos para a sua nova colonia do Brasil e, ameacados pelos interesses ingleses e franceses no nordeste de Africa, moveram as suas actividades de comercio de escravos mais para o sul, para o que e’ hoje a regiao do Congo e Angola. O nome Angola deriva da palavra Mbundu Ngola, ou Rei.

Nzinga nasceu filha do Ngola Kiluanji Kia Samba por volta de 1581, no Reino do Ndongo, constituido por povos de lingua Mbundu, na parte ocidental da hoje Angola. O rei Kiluanji tinha-se tornado um lider poderoso e opressivo, perdendo o apoio do seu povo e da sua familia. Em 1618, o irmao de Nzinga, Mbandi, depos e matou Kiluanji, tomando o trono para si proprio. Sendo um lider tao fragil e cruel quanto o seu pai, Mbandi ordenou o assassinio do filho de Nzinga numa tentativa de eliminar qualquer ameaca a sua titularidade. Na sequencia desse acto, o reino acabou por desmoronar-se, com a fuga de Mbandi da capital e o refugio de Nzinga no estado vizinho da Matamba.

Aproveitando essa crise de poder, os portugueses comecaram a forcar uma maior penetracao no pais, atravessando fronteiras que haviam sido estabelecidas pelo Ngola quando este inicialmente aceitara um limitado volume de comercio de escravos com eles. Consequentemente, o Ndongo declarou guerra aos portugueses.

Uma Habil Negociadora



Nzinga cedo demonstrou as suas capacidades de negociacao quando, num esforco para restaurar a paz, os portugueses iniciaram negociacoes com o Ndongo em 1622. Ela foi enviada como representante de Mbandi para negociar com o governador portugues, Correa de Souza, baseado em Luanda. Nzinga chegou resplandecente na sua coroa e indumentarias reais. Um artista holandes (outras fontes teem-no como frances) registou o encontro historico numa gravura. Segundo a historia, apenas uma cadeira foi colocada a disposicao no local da reuniao – a cadeira do governador – uma manobra para fazer Nzinga manter-se de pe’ e assim parecer inferior. No entanto, Nzinga fez um sinal para um dos seus servos, o qual imediatamente se prostrou de joelhos para lhe providenciar um assento. Assim, enfrentando o governador ao mesmo nivel, Nzinga pode falar de igual para igual (algumas versoes tambem rezam que no final das negociacoes ela tera’ deixado o servo em que se sentara para tras, dizendo que “a sua dignidade nao lhe permitia usar duas vezes o mesmo assento”).

As negociacoes do tratado de paz foram bem sucedidas; Nzinga convenceu os portugueses a reconhecerem o Ndongo como uma monarquia independente, ao mesmo tempo que concordava em libertar os cativos europeus tomados pelo seu irmao (tendo, porem, antes do inicio das negociacoes, respondido ao pedido do governador para a sua libertacao dizendo que “os libertaria a todos quando os do seu povo levados para o Brasil tambem o fossem”. De notar que, em geral, no Ndongo e na Matamba, e similarmente noutros reinos pre-coloniais africanos, havia dois grupos de servos: os ‘kijiko’- plural ‘Ijiko’- cidadaos nao libertos que eram permanentemente ligados a terra e nao podiam ser vendidos, e os ‘mubika’- plural ‘abika’ - escravos geralmente capturados em guerra e que podiam ser vendidos. Essa diferenca crucial foi sistematicamente ignorada pelos portugueses e outros traficantes europeus, que a desconheciam ou desrespeitavam, assim agravando a furia de Nzinga e de outros soberanos africanos do seu tempo, perpetuando as guerras, tanto contra as invasoes estrangeiras como inter-etnicas e tribais, e depauperando as forcas produtivas locais).

Mas, apenas um ano apos a assinatura do tratado, os portugueses desrespeitaram os seus termos e recomecaram as suas actividades de tomada indiscriminada de escravos. Mbandi estava a demonstrar-se um lider fraco. Desesperadamente pretendendo defender o Ndongo e o seu povo, Nzinga envenenou o irmao e sucedeu-o como Rainha do Ndongo em 1623.

Governadora de Luanda



No que tera' sido mais uma jogada politica do que uma conversao religiosa, Nzinga deixou-se baptizar pela Igreja Catolica, tomando o nome cristao de Dona Ana de Souza, adoptado do sobrenome do governador portugues. Usando a religiao como instrumento politico, ela projectou que tal gesto abriria o seu pais aos missionarios europeus e a ciencia e tecnologia avancadas.

Em 1623, Nzinga foi nomeada Governadora de Luanda pelos portugueses e manteve o posto ate’ 1626.

Uma inteligente e visionaria lider politica, Nzinga declarou todo o territorio de Angola um pais livre, ofereceu refugio aos escravos fugidos, aliou-se aos comerciantes holandeses que competiam com os portugueses e ousou encorajar uma revolta generalizada entre os africanos contra aqueles. No entanto, quando as negociacoes com uma serie de governadores portugueses falharam, os portugueses atacaram e finalmente depuseram Nzinga, forcando-a a fugir para as terras da Matamba.

Em 1626, os portugueses substituiram Nzinga por um chefe subalterno do Ndongo, Ari Kiluanji, baptizado Filipe, que se prestava melhor a cumprir as ordens dos europeus. Avaliando a sua estrategia, Nzinga formou uma alianca com o povo Imbangala, tambem conhecido como Jaga (embora alguns autores atribuam a designacao “jaga” nao a um grupo etnico especifico e coeso, mas a um conglomerado de renegados de varias origens etnicas e tribais unidos apenas pela pratica do mercenarismo belico e por actos de barbarie ritual destinados a manter a ‘moral guerreira’ nos seus acampamentos militares, chamados ‘quilombos’, e a acentuar o terror que instilavam nos adversarios. Algumas fontes tambem designam os Jaga como Yaka.), chegando mesmo a casar-se com o seu chefe. Com os jagas atras de si, Nzinga conquistou a Matamba em 1630, estabeleceu o Estado da Matamba e declarou-se sua Rainha. Cedo, porem, ate’ o chefe jaga a traiu atacando a Matamba.

Brilhante Estratega Militar

Nzinga organizou um exercito de resistencia usando os jagas e africanos que tinham sido treinados pelos portugueses (a chamada “tropa preta”). Apesar de se encontrar no exilio, ela foi capaz de influenciar o seu povo e ser por ele respeitada. Nzinga seleccionou a dedo soldados que fingiam ser desertores das suas fileiras para que eles pudessem infiltrar os exercitos portugueses. Uma vez dentro das fileiras dos portugueses, eles atacavam. Esta demonstracao de lealdade a Nzinga fez com que tropas africanas sob a dominacao portuguesa desertassem para o seu lado. Sempre encorajando a rebeliao, Nzinga conseguiu, por altura de 1635, desenvolver uma efectiva coligacao anti-portuguesa que virtualmente manteve os europeus a distancia por 30 anos. Ela foi considerada a maior estratega militar com que as forcas de Portugal alguma vez se haviam confrontado ate’ entao.

Enquanto enviava embaixadores para a Africa central e ocidental para arregimentar guerreiros, Nzinga simultaneamente forjou boas relacoes com os holandeses, entre 1641 e 1648, para que estes a ajudassem a travar o avanco dos portugueses, controlar as rotas de escravos e retomar o Ndongo. Esta alianca com os holandeses constituiu a primeira alianca Africana-Europeia contra outro agressor europeu. Nzinga nao se coibia de formar aliancas com potencias estrangeiras e depois instiga-las umas contra as outras, tudo com o objectivo de criar uma Angola livre da influencia europeia.

O maior revez que sofreu aconteceu em 1648 quando reforcos portugueses chegaram da colonia do Brasil e se demonstraram uma forca formidavel. Os holandeses foram expulsos de Luanda, deixando Nzinga sem o seu mais poderoso aliado. Recusando admitir derrota, a Rainha recomecou negociacoes de paz com os portugueses durante os seis anos que se seguiram. Embora os portugueses nessa altura estivessem contidos, tornou-se claro que nao seriam removidos. Nzinga foi entao forcada a reconhecer Filipe como rei e a soberania de Portugal sobre o Ndongo. No entanto, ela permaneceu Rainha da Matamba independente ate’ a sua morte, em 1663, com a idade de 82 anos.

Soberana Insubstituivel




Um observador holandes reportou que Nzinga gostava de lutar e as vezes vestia-se como um homem. Ela sobreviveu aos portugueses gracas a sua astucia e audacia. Apesar de nao se furtar a aliancas com europeus, e’ lembrada como uma lider Angolana que nunca aceitou a soberania portuguesa. Nzinga foi de tal modo influente que durante a sua vida foi responsavel por travar a invasao do interior e sudoeste Africano pelos portugueses; mas depois da sua morte, o comercio portugues de escravos floresceu na regiao.

Embora Nzinga tenha escolhido a sua irma Mukambo, baptizada Dona Barbara (pela libertacao da qual como cativa dos portugueses lutou infatigavelmente durante varios anos. A outra sua irma, Kifungi, baptizada Dona Graca, havia sido afogada no Rio Kwanza pelos portugueses sob acusacao de espionagem a favor de Nzinga, atraves das cartas que lhe escrevia enquanto sob o seu cativeiro), para a suceder como Rainha e a tenha casado com um general do seu exercito, uma luta de sucessao seguiu-se a sua morte. Todos os novos lideres falharam em contrariar a influencia dos portugueses, que haviam retomado o controlo do territorio em 1648. Apenas tres seculos depois, em 1974, um golpe militar em Portugal finalmente conseguiria forcar o governo a retirar as suas tropas das colonias africanas.

A ascensao de Nzinga ao poder deveu-se as suas capacidades pessoais que suplantaram as limitacoes do genero. Ela demonstrava manobras praticas, tais como a sua alianca com os jagas e os holandeses, assim como auto-sacrificio durante os seus exilios. Decidida a lutar pela liberdade lado a lado com os seus guerreiros, Nzinga demonstrou bravura, inteligencia e uma inquebrantavel determinacao de conquistar a paz para o seu povo.

***

* Variacoes graficas do seu nome incluem: Rainha Nzinga, Nzinga I, Rainha Nzinga Mdongo, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande, Jinga, Singa, Zhinga, Ginga, Njinga, Njingha, Ana Nzinga, Ngola Nzinga, Nzinga da Matamba, Rainha Nzingha do Ndongo, Zinga, Zingua, Ann Nzingha, Nxingha, Mbande Ana Nzingha, Ann Nzingha, Dona Anna de Sousa, e Dona Ana de Souza. Em algumas das suas cartas ela assinava “Ginga”. Na estatua do Largo do Kinaxixi em Luanda ela e’ designada como "Mwene Njinga Mbande".

***

Embora ache um “exagero poetico” afirmar-se que a Rainha Ginga nasceu nas margens do Rio Zaire (os registos historicos denotam que ela nasceu no Reino do Ndongo, o qual, sendo embora tributario do Reino do Kongo, se situava a alguma distancia geografica do Rio Zaire, sendo portanto mais razoavel supor-se que ela tera’ nascido nas margens do Rio Kwanza), esta cancao do Waldemar Bastos parece-me uma homenagem apropriada aquela sobre quem uma vez escrevi ser “um dos expoentes maiores da Nacionalidade Angolana”…


[Rainha Ginga - Waldemar Bastos]